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Brasileiros viram sinônimo de bebidas grátis no centro de Madri

Na Espanha é costume contratar pessoas de maneira informal para convidar os clientes para o primeiro drinque e, assim, encher o estabelecimento. E é aí que entram os jovens brasileiros entregando folhetos e chamando para uma bebida grátis no bar em que trabalham.

Falatiel do Nascimento, pernambucano de 27 anos, está na Espanha desde 2002. Há seis anos, distribui folhetos e convida as pessoas a entrarem na casa noturna onde trabalha. Ganha de 1.000 a 1.300 euros ao mês (entre R$ 2.265 a R$ 2.945), para uma jornada de seis horas por dia, de quinta a segunda, de 20h a 1h. “É um bom trabalho, porque o chefe não está o tempo todo em cima como em restaurante. Além disso, tem muita paquera, muita história pra contar”, explica.

Os jovens brasileiros que vão morar na Espanha podem ser divididos em duas categorias principais: os estudantes e os que vão trabalhar. No entanto, esses caminhos muitas vezes se cruzam, já que os estágios são mal remunerados e os estudantes são impedidos de trabalhar legalmente durante o dia.

Muitos acabam nesta atividade chamada na Espanha de “relaciones publicas”. Grande parte trabalha durante a noite e madrugada. E, como o objetivo é encher o bar, muitos ganham por pessoa que convencem a entrar e tomar uma bebida grátis.

Bruna Ramirez alega que é possivel se  divertir enquanto está no trabalho

Bruna Ramirez alega que é possivel se divertir enquanto está no trabalho

“No começo, não falava bem o espanhol e quase não entendia as pessoas. Mas fiz muitos amigos. Além disso, é a única maneira de trabalhar sem visto”, conta Bruna Ramires, carioca que esteve em Madri em 2008 e 2010 para estudar e trabalhou para ter dinheiro para viajar pela Europa durante sua estadia.

Como ela, há muitos jovens de todas as partes do mundo que estão de passagem por poucos meses. E cada zona da cidade acaba reunindo uma nacionalidade diferente. Em Sol, coração de Madri, a maioria dos jovens nessa atividade são brasileiros.

“Logo que cheguei, conheci um rapaz que conseguiu uma vaga para mim e, sempre que sei que estão precisando de gente, indico outros brasileiros que conheço”, conta Daiane Formoso. Ela saiu da cidade gaúcha de Santana do Livramento em 2008 para fazer um curso de maquiagem em Madri. A gaúcha já está na especialização em maquiagem de cinema e não pretende voltar tão cedo. “No Brasil, eu teria mais êxito na minha profissão, mas a segurança e a infraestrutura daqui compensam”, explica.

Daiane trabalha para três casas noturnas, numa jornada de 8 horas diárias, de quinta a domingo, e ganha 1.200 euros por mês (o equivalente a R$ 2.720) em média. “Tem dias que trabalho de tarde, e outros, à noite. Nunca tenho uma rotina”, completa.

Apesar da oferta, não é fácil convencer as pessoas a entrarem nas casas noturnas para tomar um mojito ou capirinha grátis. “A maior dificuldade era levar gente toda semana. As pessoas não querem ir à mesma casa noturna sempre, e o círculo social não é infinito. Como eles me contrataram por meta, precisava levar um número mínimo de convidados ou não ganhava nada”, explica Bernardo Gil.

O estudante foi a Madri para um semestre de intercâmbio em uma universidade espanhola em 2009 e trabalhou quatro meses distribuindo flyers três noites por semana. “A sociedade madrilenha tem uma visão negativa dos brasileiros por conta dos imigrantes ilegais. Eu ganhava o respeito das pessoas quando dizia que era estudante”, conta.

Ele conseguia levar os amigos criando listas de convidados e enviando por e-mail. “Estudei comunicação e hoje trabalho com marketing, são áreas próximas, e é o que escolhi fazer”, justifica Bernardo.

Há muito espaço pra estudantes estrangeiros neste tipo de subemprego, pois estão ali temporariamente e são mais abertos a novas amizades. Mas todos concordam num ponto: não distribuiriam panfletos no Brasil.

Brasileiros ilegais
Também trabalham nas noites de Madri brasileiros que chegaram como turistas e não têm permissão para trabalhar. Em geral com menos estudo, a maioria mora ilegalmente na Espanha.

Ricardo de Sales, de Campo Grande, foi a Madri com o objetivo de trabalhar, e já vive na Espanha há quatro anos. Sem visto, a maneira mais fácil de conseguir dinheiro foi distribuindo panfletos. Ele trabalha todas as noites das 23h às 4h e ganha 1.200 euros ao mês (o equivalente a R$ 2.720). “Já fui preso duas vezes, mas me soltaram no dia seguinte com uma carta de expulsão. Em breve, me casarei com uma espanhola e já não terei que me preocupar com a polícia de imigração”, conta Ricardo.

Franciele de Brito saiu de Maringá há cinco anos, também para trabalhar na Espanha. Atualmente, coordena uma equipe de jovens que distribui panfletos no centro de Madri. Ela explica outras dificuldades além de convencer os clientes. “É muito diferente para homem e para a mulher porque os clientes sempre querem algo a mais com a gente. No verão o trabalho é mais leve, mas no frio muitos prefeririam estar de noite em casa quentinha.”

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Anderson Guizolfe
Anderson Guizolfe é jornalista, fotógrafo profissional e se aventura no marketing e em novas tecnologias. Faz coberturas fotográficas dinâmicas em diversos eventos, e à 12 anos garimpa informações e notícias entre uma faculdade ou outra, e o serviço público.